Caro colega,
O NEBio vai promover um novo encontro de Bioética “Um dia com o NEBio” no dia 9 de Outubro 2021. (Consulte aqui o programa).
Incluímos no programa a noção de semiologia da narrativa com a Profª Susana Magalhães – “Morreste-me” [alusão ao livro de José Luís Peixoto] centrado na perda de um doente e desenvolvido em formato de paralell chart (registo clínico paralelo).
“It takes a doctor to pronounce you a patient. It takes a person to acknowledge a person. For the patient to be treated as a person in a therapeutic relation, it takes a career who is aware of his or her cognitive and emotional power and responsibility.” Teresa Casal. 2014.
A Medicina Narrativa é uma área interdisciplinar que se sedimentou no início do séc. XXI em resposta às inquietações éticas de uma prática médica orientada para a estandardização e que não comportam a dimensão subjetiva e intersubjetiva das relações humanas. Pelo facto de promover a reflexão sobre a natureza do conhecimento a medicina narrativa
· promove a sensibilidade ética no encontro com o Outro ,.. para além do encontro médico-doente, integrando o que acontece fora deste contexto, mas com impacto no mesmo;
· … uma fonte de recursos imagéticos e linguísticos que podem facilitar a comunicação entre quem cuida e quem é cuidado.
O cuidado é sempre concreto, relacional, responsável e comprometido, pelo que, para cuidarmos bem, temos de resgatar três conceitos que têm sido roubados na sua espessura, tornando-se tão magros que quase não os vemos: Tempo, Palavra e Relação. Para que estes conceitos sejam verdadeiramente (re)integrados nos cuidados de saúde, seria importante (re)definirmos os seus alicerces à luz do que designo de três R’s: Relação, Reconhecimento da Vulnerabilidade e Respeito. São estes pilares que, existindo, permitem que os significados que emanam da pessoa que está doente e não apenas da doença tenham impacto na tomada de decisão em contexto clínico. Não basta colher mais dados sobre o doente e registá-los na ficha clínica, se não houver espaço para reconhecer e integrar a interpretação destes dados por parte do doente, bem como o papel modelador da interação médico/outros profissionais de saúde e pessoa doente no próprio acto comunicativo. … E a situação será ainda mais complexa e perniciosa se neste processo de rotulagem se incluir o profissional de saúde como invulnerável, neutro, objetivo, dissociando a sua humanidade do seu exercício profissional. … A morte recuperada pelo reconhecimento da nossa vulnerabilidade universal e contextual pode assim afirmar-se, não como o fim do qual todos procuram fugir, mas sim como o processo de cuidar até morrer.